Saturday, July 15, 2006

BIOGRAFIA


Raul Bopp (Vila Pinhal RS, 1898 - Rio de Janeiro RJ, 1984). Fundou, por volta de 1917, os seminários O Lutador e Mignon, em Tupanciretã RS. Cursou Direito, entre 1918 e 1925, em Porto Alegre RS, Recife PE, Belém PA e Rio de Janeiro RJ; cada ano letivo foi freqüentado em uma capital. Percorreu longamente a Amazônia, na década de 1920. Em 1922 participou na Semana de Arte Moderna, em São Paulo SP. Dois anos depois, passou a integrar os movimentos Pau-Brasil e Antropofágico, com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Antônio Alcântara Machado. Em 1931 lançou Cobra Norato, seu primeiro livro de poesia e um dos mais importantes do Modernismo. Foi jornalista e diplomata; entre 1942 e 1973 viveu em Los Angeles (EUA), Berna (Suíça), Rio de Janeiro RJ, Brasília DF e Porto Alegre RS. No período, publicou os livros em prosa América, Notas de um Caderno Sobre o Itamaraty, Movimentos Modernistas no Brasil: 1922/1928, Memórias de um Embaixador, Bopp Passado a Limpo por Ele Mesmo, Vida e Morte da Antropofagia e Longitudes, entre outros. Fazem parte de sua obra poética Urucungo (1932), Poesias (1947), Mironga e Outros Poemas (1978), entre outros. Raul Bopp é um dos nomes fundamentais da primeira geração do Modernismo. Murilo Mendes afirmou que "Cobra Norato é o documento capital dessa ruptura de um poeta que, tendo viajado tanto e conhecido culturas tão diferentes, permaneceu tipicamente brasileiro e levou a termo, em pleno século XX, o que os outros descobridores do Brasil tinham tentado em vão desde o início do século XVII. Na linguagem, Bopp, forjador de um léxico saboroso, fundiu sabiamente vozes indígenas e africanas, alterando a sintaxe, sem cair nos exageros e preciosismos de Mário de Andrade."
CRONOLOGIA
Nascimento/morte
1898 - Vila Pinhal RS - 4 de agosto
1984 - Rio de Janeiro RJ - 2 de junho

Vida familiar

1946 - Zurique (Suiça) - Nascimento do filho Sérgio Bopp, pintor
1947 - Nasce seu segundo filho, Jorge Luiz.- 'Poesias'. Zurique: Orrel Fussli, 1947, com capa de Zltan Kemeny (localização: Biblioteca Mário de Andrade – SP).

Formação

1905c./1909c. - Tupanciretã RS - Curso primário
1910c./1918c. - Santa Maria RS - Curso secundário
1918/1925 - Porto Alegre RS, Recife PE, Belém PA, Rio de Janeiro RJ - Curso de Direito, frequentado cada ano letivo em uma capital
1925 - Rio de Janeiro RJ - Bacharel em Direito

Contatos/influências
Convivência com Antonio Bento, Joaquim Inojosa, José Lins do Rego, Luís da Câmara Cascudo
1918 - Porto Alegre RS - Membro do Grupo dos Cinco, com Aureliano Figueiredo Pinto, André Carrazzoni, Márcio Dias, Olmiro Azevedo
1922 - Rio de Janeiro RJ - Convivência com Álvaro Moreyra, Aníbal Machado, Manuel Bandeira, os poetas do Grupo Festa

Atividades literárias/culturais
1917c. - Tupanciretã RS - Fundador dos semanários O Lutador e Mignon
1918c./1929 - São Paulo SP, Recife PE e Rio de Janeiro RJ - Colaborador do Jornal do Comércio e Diário de São Paulo; das revistas Máscara, Paratodos e Revista de Antropofagia
1921 - Muda-se para Belém do Pará e cursa o quarto ano de direito.- Leciona Geografia no Ginásio Paes de Carvalho.- Empreende a primeira viagem pela região Amazônica: 'A floresta era uma esfinge indecifrada. Inconscientemente, fui sentindo uma nova maneira de apreciar as coisas.'- Começa a escrever Cobra Norato.
1922 - São Paulo SP - Participação na Semana de Arte Moderna
1924 - São Paulo SP - Participação nos movimentos Pau-Brasil e Antropofágico com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Antônio Alcântara Machado
1926 - Muda-se para São Paulo, onde vive até 1929.- Breve aproximação do grupo anta.- Começa a escrever os poemas de Urucungo
1928 - São Paulo SP - Publicação de Caminho Para o Brasil, com Américo R. Neto e Donald Derron (Ed. da Associação Paulista de Boas Estradas)
1931 - Amigos de Bopp publicam Cobra Norato - seu livro principal e a obra mais importante do movimento antropofágico.- 'Cobra Norato: nheengatú da margem esquerda do Amazonas'. São Paulo: Irmãos Ferraz, 1931. (localização: Biblioteca Mário de Andrade – SP).
1936 - Iocoama (Japão) - Fundador do jornal mensal Correio da Ásia, com José Jobim
1938 - Tóquio (Japão) - Publicação de Geografia Mineral e Sol e Banana, com José Jobim (Ed. Kokusai Shuppan Insatsusha)
1942/1973 - Los Angeles (EUA), Berna (Suíça), Rio de Janeiro RJ, Brasília DF, Porto Alegre RS - Publicação dos livros em prosa América, Notas de Viagem: Uma Volta ao Mundo em Trinta Dias, Notas de um Caderno Sobre o Itamaraty, Movimentos Modernistas no Brasil: 1922/1928, Memórias de um Embaixador, Coisas do Oriente: Viagens, Bopp Passado a Limpo por ele Mesmo, Samburá: Notas de Viagens e Saldos Literários, Vida e Morte da antropofagia e Longitudes
1973 - 'Samburá, notas de viagens & saldos literários'. retalhos de prosa de diferentes épocas narra viagens a países da América Latina.- 9a edição de Cobra Norato, com prefácio de Antônio Houaiss e ilustrações de Poty.
Outras atividades
Cuiabá MT - Pintor de paredes
Buenos Aires (Argentina) - Caixeiro de livraria
Buenos Aires (Argentina) - Secretário do Conselho Federal do Comércio Exterior
A agradável surpresa do livro é a competente análise do trabalho de Raul Bopp. Chamado de “Marco Pólo de nosso tempo”, o escritor teve uma vida repleta de viagens e de aventuras. Isto pode ser verificado na jornada a cavalo que fez, com 16 anos, atravessando durante oito meses Mato Grosso, Argentina e Paraguai.
O curso de Direito foi feito cada ano numa universidade diferente (Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro). Para financiar essas jornadas, Bopp fazia de tudo, inclusive pintar paredes. Foi exatamente no período que passou na Amazônia que, provavelmente, veio a força de Cobra Norato – obra que retoma a riqueza e a universalidade do mito local da Cobra Grande – em que o personagem central, o herói-narrador, apossa-se da pele da cobra e sai “a correr o mundo”.
Vera Lúcia conclui que Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e Raul Bopp “representam contribuições indispensáveis ao debate sobre a definição de uma identidade nacional, prioritário para um país de origem colonial, como ficou evidenciado pela constância com a qual a literatura brasileira retorna à questão”. Neste livro, ela mostra, por meio de ampla pesquisa e perspicaz análise, como os três autores, com cargas maiores ou menores de polêmica, deram contribuições definitivas para a busca de uma maturidade nacional.

Versões/adaptações
1975 - Filme Raul Bopp, dir. Heloísa Buarque de Hollanda
1979 - Ouro Preto MG - Estréia da peça teatral Cobra Norato Por e Para Raul Bopp no Teatro Municipal, dir. e cenografia Álvaro Apocalypse, música de Lindembergue Cardoso, com o grupo Giramundo Teatro de Bonecos

CONTEXTO
Movimentos Literários
1930/1945 - Modernismo (Segunda Geração)
Em Cobra Norato (1931), de Raul Bopp, é detectado um retorno ao pré-tempo, ou seja, ao mito. O autor, após uma série de viagens pelo país, em que conhecera diversos costumes e tradições, traz a magia e o misticismo para a sua literatura, buscando encontrar o Brasil primitivo anterior à lógica e ao racionalismo científico.
  • Você conhece outro poeta da era do Modernismo?
  • Cobra Norato foi uma das melhores realizações do Movimento de Antropofagia?

MOVIMENTO MODERNISTA BRASILEIRO



Movimento Modernista brasileiro, aquele mesmo que subverteu a pretensa ordem do ideário poético parnasiano; aquele que colocou em cheque as manifestações beletristas e ocas daquelas produções e acenou com uma nova ordem estilística: sem obrigatoriedades, sem rimas, sem métrica, sem purismos; mas com muita crítica, muito senso de brasilidade, muitas expressões cotidianas e irregularidades propositais.No Modernismo, pois, concentra-se uma maneira bem sucedida de patriotismo e de apropriação de uma identidade verdadeiramente brasileira em nossa literatura, já tendo sido apontado por muitos historiadores literários que a Semana de Arte Moderna, 1922, assinala o marco representativo de nossa independência cultural, no que diz respeito às estéticas européias assumidas desde sempre.A retomada de nossos valores culturais pelos modernistas, no entanto, conseguiu escapar de um caráter ufanista, artificial e gratuito, como talvez possa ter ocorrido em manifestações literárias anteriores; dessa vez, a busca pela nossa história, cultura popular e folclore não se voltava apenas para a produção de um cenário ou palco onde se desenrolariam as ações ou atividades baseadas em modismos estrangeiros. Com o Modernismo, veio a atitude antropofágica, que consistia em apropriar-se o artista de toda e qualquer manisfestação artística externa, "degluti-la", "digeri-la", processando-a juntamente com nossos valores, a fim de que o novo produto refletisse uma reelaboração típica de nossa própria forma de manifestar arte e cultura.Raul Bopp elege a lenda Cobra Norato como espaço possível e ideal para exercitar essa forma de abordagem e produção literária. Explorar a riqueza do repertório de lendas brasileira mostrava-se então atividade perfeita aos ideais modernistas, na construção de uma estética propriamente brasileira. Falar da floresta amazônica e das personagens de suas lendas – a Matinta-Perera, o Saci-Pererê, o Curupira – trazê-los para o foco do lirismo, significou produzir o clima de brasilidade almejado.Segundo Carlos Drummond de Andrade, Cobra Norato "é possivelmente o mais brasileiro de todos os livros de poemas brasileiros, escritos em qualquer tempo" (Bopp, Raul. Cuidados de Arte). Para saborear esse gostinho nacional, é preciso, no entanto, aproximar-se das lendas brasileiras bem como das dificuldades de estilo comumente encontradas nas histórias populares. O leitor há que se acostumar com aquele falar especial, eivado de expressões inesperadas, marcado por soluções lingüísticas particulares, enfim, carregado de exigências dirigidas a um leitor-cúmplice, ou seja, um leitor que aceite desafios.É assim Cobra Norato. Recomenda-se um certo currículo, antes de se adentrar o poema de Bopp: inicialmente, a leitura da lenda na versão de Câmara Cascudo, para que se penetre na linguagem entrecortada por regionalismos e para que a mente se acostume às prioridades da prosa popular e ao seu ritmo; em segundo lugar, uma aproximação de iconografia representativa da floresta e de suas paisagens assustadoras e ao mesmo tempo sedutoras; finalmente, que se dome o medo de observar a "boiúna", ou sucuri, ainda que em foto ou pintura. Pronto! A mente estará disposta a conhecer o belo poema modernista Cobra Norato, de Raul Bopp.Publicado pela primeira vez em 1931, o poema se inclui na produção do que se convencionou chamar de 'segundo tempo modernista'. Raul Bopp, nascido no Rio Grande do Sul (1898-1984), aderiu às correntes do 'antropofagismo' e 'verde-amarelismo', produzindo tal obra, considerada a mais importante referência literária desses ideais.Norato é o herói dessa história; sua missão é resgatar uma virgem em cativeiro no buraco da terrível "Cobra Grande". Raul Bopp elaborou essa história em 1921, no Pará, onde era estudante de direito. O poeta visualizou na lenda da Cobra Grande uma associação dessa narrativa à do Minotauro, em Creta, que, segundo o mito grego, também cobrava o pagamento de uma moça virgem a cada lua cheia. Dessa maneira, de acordo com o caráter antropofágico já mencionado, temos que essa obra revela um caráter uno (brasileiro) e múltiplo (universal) por lidar com símbolos e situações ( por detrás dos símbolos) essenciais aos seres humanos (o medo, as conquistas, a sexualidade).A abertura do poema, de enredo épico, apresenta a fusão do eu-lírico (voz que fala no poema) à imagem de Cobra Norato, animal do Bem, apesar de peçonhento: o herói "estrangula" a serpente, vestindo sua pele a fim de deslizar mata adentro. Essa foi a maneira de fazê-lo penetrar na floresta em busca de sua amada. Diz o início do poema:
"Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim
Vou andando caminhando caminhando
me misturo rio ventre do mato mordendo raízes
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato
-- Quero contar-te uma história:
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?(...)
(...) Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra
Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo
Vou visitar a filha da rainha Luzia.(...)"
O início da saga, portanto, apresenta um projeto de busca, de conquista e de sedução. A Cobra Norato é sensualmente convidada a passear por "ilhas decotadas", para posteriormente ser dominada e oferecer sua pele sedosa como passaporte a uma viagem, uma imersão na floresta.Essa floresta, simbolicamente, representa o 'Brasil cultural subjacente' a um 'Brasil cultural aparente' que se tinha até então. Há, pois, uma descoberta a ser feita; a descoberta de um Brasil. Nessa viagem, a busca por elementos nacionais entranhados no mais profundo inconsciente coletivo será assinalada: lendas, sacis, onças; representantes do imaginário social brasileiro são introduzidos no poema, por vezes como muitas das "provas" pelas quais o herói terá de passar para chegar até sua amada. O desdobramento das provas de conquista e seu sucesso para com estas serão a diplomação que confirma a descoberta de um valor cultural.A seqüência de imagens que se seguirá, na descrição da floresta, apresenta um caráter essencialmente modernista. De acordo com Régis Bonvicino, o poeta, também envolvido com os conceitos de pintura desenvolvidos na época, na Europa (cubismo, fauvismo, expressionismo) inclui tais referências em seu poema, ora referindo-se a elementos geométricos explicitamente, ora criando imagens que revelam certo gosto pelo exagero pictórico:
"(...) Aqui a pé, a escola das árvores (...) estão estudando geometria (...)"
"(...) A noite encalhou com um carregamento de estrelas(...)"
"(...) O charco desdentado rumina lama(...)"
Bopp foi amigo pessoal de Tarsila do Amaral e de Oswald de Andrade, tendo sido aquele que, juntamente com Oswald nomeou o quadro Abaporu (Antropófago), em 1928. Foi chamado às pressas à casa do casal para ver aquele ser disforme, retratado sob perspectiva "equivocada", com membros gigantescos e outros atrofiados. Foi nesse momento, e sob o impacto dessa visão que surgiu o germe da "antropofagia", o ideal de criação de um movimento artístico e literário eminentemente brasileiro, questionador da cultura francesa alienada e dominante no cenário cultural de então, o qual deveria procurar associar tais contradições numa nova estética produtora de arte. Segundo o próprio Bopp: "Debaixo de um Brasil de fisionomia externa, havia um outro Brasil de enlaces profundos, ainda incógnito, por descobrir (...) síntese cultural própria."Dessa forma, Bopp conquista o que Régis Bonvicino avaliou como sendo "cultura brasileira em diálogo com o mundo contemporâneo". Em seu ensaio comparativo entre a obra de Tarsila do Amaral -- fase antropofágica -- e o poema de Bopp, Bonvicino mapeia nas telas da pintora referências feitas aos personagens, imagens e situações contidos no poema. O "sapo", primeiro personagem citado no poema, é retratado na tela de mesmo nome ("O Sapo") de Tarsila, a olhar para um túnel que leva ao desconhecido, assim como o eu-lírico, em Cobra Norato, traça uma preparação para se adentrar a desconhecida floresta amazônica: "Começa agora a floresta cifrada (...) A sombra escondeu as árvores(...)"A cidade e sua perspectiva moderna estão imbricados com o primitivismo que figura na base do poema. A grandiosidade da floresta e a ameaça assustadora que representa são características também aplicáveis à moderna cidade: "Noite está bonita/ parece envidraçada" (...) "a floresta ventríloqua brinca de cidade" (...)Assim sendo, o poema reúne noções primitivas e contemporâneas que se justapõem, formando um mosaico a ser lido como o texto de um sonho. De acordo com Affonso Romano de Sant’Anna, Cobra Norato é "um poema estranho. É de leitura difícil, pois não segue em linha reta como Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo, onde este retoma lendas indígenas para contar a origem do Brasil. É um texto fragmentário, feito de montagens. O autor tenta reproduzir, aqui e ali, falas que entrecortam o texto, exclamações primitivas que parecem vindas de fora da cena." ( in Cobra Norato. O poema serpente. 21ª ed., José Olympio)A sedução e sensualidade que perpassam todo o poema são também elementos que podem revelar referências às descobertas da psicanálise, em efervescência naquele momento, no que concerne às pulsões sexuais que, de acordo com aquela teoria, orientam o comportamento humano e a organização da sociedade. A simbologia contida na imagem da cobra é explícita:
"(...) Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia (...)"
"(...) Quero me amaziar com a filha da rainha Luzia (...)"
Desdobrando ainda mais a tensão sexual que há no poema, quando Norato, despojado da pele de cobra, e com a ajuda do Tatu-de-bunda-seca, deverá resgatar a filha da rainha Luzia do buraco da Cobra Grande, uma segunda serpente – esta,sim, monstruosa e do Mal. Lá está a moça, "nuinha", no buraco da cobra, aguardando sem esperanças de se salvar o momento da consumação do "casamento" (acasalamento) com o monstro. É quando Norato diz a um "compadre": "Quero ir ao casamento!" , ao que o compadre responde: "Só com mandinga, pois casamento de cobra é confusão." Ambos ouvem "soluço na noite", "choro de moça". Norato é assustado pelas entidades da floresta (Matinta-Perera, Saci), mas após deixar fumo para o Curupira, espia a moça "nua", no buraco da cobra, e a resgata de lá. Finalmente, explicita seu desejo de se casar e de tomar sexualmente a filha da Rainha Luzia:
"(...) Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem (...)
A "descoberta", inicialmente citada, de um Brasil culturalmente inexplorado também pode ser associada aqui ao desvirginamento de Luzia após sua conquista, numa tomada de posse consentida e adequada. O final do poema traduz a conquista dos valores subjacentes e ocultos, bem como o recobrar de uma unidade nacional em diálogo com o mundo contemporâneo.
  • Por que um poeta da região Sul criou um poema de uma lenda da região Norte?
  • Por que ele usou uma cobra como peça principal de seu poema?

Monday, July 10, 2006

OBRA


Cobra Norato(fragmentos)
I

Um dia
ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim.
Vou andando, caminhando, caminhando;
me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes.
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato.
— Quero contar-te uma história:
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.
A noite chega mansinho.
Estrelas conversam em voz baixa.
O mato já se vestiu.
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a cobra.
Agora, sim,
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo:
Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.
— Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.
II

Começa agora a floresta cifrada.
A sombra escondeu as árvores.
Sapos beiçudos espiam no escuro.
Aqui um pedaço de mato está de castigo.
Árvorezinhas acocoram-se no charco.
Um fio de água atrasada lambe a lama.
— Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!
Agora são os rios afogados,
bebendo o caminho.
A água vai chorando
afundando afundando.
Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.
— Agora sim,
vou ver a filha da rainha Luzia!
Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados
guardadas por um jacaré.
— Eu só quero a filha da rainha Luzia.
Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo
Tem que fazer mironga na lua nova.
Tem que beber três gotas de sangue.
— Ah, só se for da filha da rainha Luzia!
A selva imensa está com insônia.
Bocejam árvores sonolentas.
Ai, que a noite secou. A água do rio se quebrou.
Tenho que ir-me embora.
E me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam.
De todos os lados me chamam:
— Onde vai, Cobra Norato?
Tenho aqui três árvorezinhas jovens, à tua espera.
— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.
IV
Esta é a floresta de hálito podre,
parindo cobras.
Rios magros obrigados a trabalhar.
A correnteza arrepia
da junto às margens
descasca barrancos gosmentos.
Raízes desdentadas mastigam lodo.
A água chega cansada.
Resvala devagarinho na vasa mole
com medo de cair.
A lama se amontoa.
Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé.
Fede...
Vento mudou de lugar.
Juntam-se léguas de mato atrás dos pântanos de aninga.
Um assobio assusta as árvores.
Silêncio se machucou.
Cai lá adiante um pedaço de pau seco:Pum
Um berro atravessa a floresta.
Correm cipós fazendo intrigas no alto dos galhos.
Amarram as árvorezinhas contrariadas.
Chegam vozes.
Dentro do matopia a jurucutu.
— Não posso.Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.
XXXII

— E agora, compadre,
eu vou de volta pro Sem-Fim.
Vou lá para as terras altas,
onde a serra se amontoa,
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu.
Quero levar minha noiva.
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar,
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor.
Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém.
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem, bem;
Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu,
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar,
E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de contar histórias
(histórias de não-dizer-nada)
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.
  • O que você criaria em cima desse fragmento de Cobra Norato para explicar ao aluno esta história?
  • Você acha que essa obra mexe com a imaginação do aluno?

CURIOSIDADES


PEÇA TEATRAL ENCENADA – COBRA NORATO

Encenado pelo Grupo Giramundo Teatro de Bonecos pela primeira vez em 1979, o espetáculo 'Cobra Norato' é considerado, tanto pelo público quanto pela crítica, um dos mais belos do Giramundo, e foi escolhida pela TV Escola para se transformar em vídeo e entrar na grade de programação do canal, mostrando aspectos geográficos, lingüísticos e abordando a pluralidade cultural do Brasil.
A peça é baseada no texto homônimo de Raul Bopp, que foi escrito, pela primeira vez, em 1921, em decorrência das várias andanças de seu autor pela Amazônia. Em 1931, depois de várias alterações, o poema é editado por iniciativa dos amigos e à revelia do autor. Do ponto de vista literário, o poema se insere no contexto histórico do Manifesto Antropofágico e do Modernismo, movimentos que renovaram o panorama das artes no Brasil, nas primeiras décadas do século XX.
'Cobra Norato' pertence à classe dos mitos serpentários do folclore da Amazônia, que inclui as lendas da Cobra Grande, Boiúna e Cobra de Óbidos, e se relaciona com os mitos aquáticos de Iara, Mãe D’Água e Iemanjá. Segundo a lenda, uma cunhã foi engravidada pela Boiúna, parindo duas crianças; mas, obrigada pelo Pajé, acabou por atirá-las no rio onde se criaram, transformadas em cobra.
O menino, chamado Honorato (Norato), tinha boa índole, mas sua irmã, Maria Caninana, era perversa, perseguia animais e afogava os navegantes. Isso fez com que Norato a matasse para se ver livre dela e viver em paz. Cobra Norato, à noite, costuma se transformar em rapaz elegante e dançar nas festas à beira do rio, deixando na margem seu imenso couro de cobra.
  • Foi um incentivo à leitura e conhecimento de uma obra que a TV Escola fez, isso poderia ocorrer até mesmo nas escolas. Como você, futuro educador faria para incentivar o conhecimento dos alunos na literatura?
  • Qual a mensagem que trouxe para você o texto de Raul Bopp?

CRITICA



Leituras críticas

"O movimento antropófago teve em Bopp um de seus chefes principais. Basta mencionar os títulos de alguns livros anunciados por ele, lá pelos anos de 1928, para se ter uma idéia de quão viva era em nosso poeta a consciência da ruptura com as fontes tradicionais: Livro do Nenê Antropofágico, As Origens Cristãs da Sífilis, Mombéu (coleção de fábulas nacionais) etc., componentes nunca realizados numa 'bibliotequinha antropofágica'. Mas 'Cobra Norato' é o documento capital dessa ruptura de um poeta que, tendo viajado tanto e conhecido culturas tão diferentes, permaneceu tipicamente brasileiro e levou a termo, em pleno século XX, o que os outros descobridores do Brasil tinham tentado em vão desde o início do século XVII. Na linguagem, Bopp, forjador de um léxico saboroso, fundiu sabiamente vozes indígenas e africanas, alterando a sintaxe, sem cair nos exageros e preciosismos de Mário de Andrade."
Mendes, Murilo [1973]. De Murilo Mendes sobre Raul Bopp. In: Bopp, Raul. Mironga e outros poemas. p.12.

"O mundo do instinto e do inconsciente é o primitivo e natural por excelência, já que de sua repressão nasce a cultura. Procedendo a este retorno, Bopp situa seu relato num Brasil tão primordial, que as coisas ainda não têm nome. Quando aparecem seres humanos, (...) a ambiência primitiva já está assegurada e nada mais pode mudá-la. De modo que ainda não se trata de uma civilização com fronteiras sociais demarcadas ou convenções estabelecidas; diz respeito antes a este mundo em formação que virá a tornar-se um 'Brasil', utopia na qual acredita o Poeta e que consistiu na aspiração maior da Antropofagia."
Zilberman, Regina [1980]. O modernismo e a poesia de Mario Quintana. In: ___. A literatura no Rio Grande do Sul. 2.ed. p.52.

"No caso de Raul Bopp - e foi Sérgio Buarque de Hollanda quem o afirmou - 'o poeta parece inseparável de sua poesia'. E continua: 'Formam ambos uma harmonia tão inteira e acabada que dividir um do outro é correr o risco de mutilá-los'. É exato: em poetas como Bopp, ou como Rimbaud na literatura francesa, a aventura humana corre paralela à aventura literária. Como o poeta das Iluminações, o autor de Cobra Norato colocou a vida acima da literatura, e por isso impregnou sua obra de mais autenticidade. Pode-se dizer que, em caso contrário, talvez tivesse ele se debruçado mais sobre o seu fazer literário, disso resultando uma maior produtividade. Se assim não ocorreu, no entanto, sua intensa vivência do mundo selou sua obra com a marca da vitalidade."
Averbuck, Lígia Morrone [1986]. O universo de Cobra Norato e a antropofagia. In: ___. Raul Bopp. p.11-12.
A serpente, em diversas culturas, sempre está ligada ao bem e ao mal. Símbolo da sabedoria da Terra, já no Gênesis, ela aparece para seduzir e persuadir Eva. Cumprida a tarefa de sedução, é castigada e submetida a rastejar em toda sua existência. No seu rastejar, une seu ventre ao da mãe-terra, dela captando a energia cósmica que a impulsiona à vida e à morte. Nesse sentido, a serpente carrega em si a fascinação e o terror da vida de forma simultânea. Vejamos a definição de Campbell (1990, p.49): “A serpente é aquele ser que trouxe o pecado ao mundo. A mulher é quem ofereceu a maçã ao homem. Essa identificação da mulher com o pecado, da serpente com o pecado e, portanto, da vida com o pecado, é um desvio imposto à história da criação, no mito na doutrina da queda, segundo a Bíblia. Não temos conhecimento da imagem da mulher como pecadora em outras mitologias, além da cristã; nem mesmo na cultura africana”.
  • O que você achou da dedicação de Raul Bopp ao escrever Cobra Norato?
  • Qual a sua opinião sobre a comparação da Cobra Norato com a serpente citada em Gênesis na Bíblia?

REFERÊNCIAS